A mistura do tamborzão e de vozes do funk com a batida do house ou EDM do eletrônico virou presença garantida nas festas de rua no interior do Brasil. Antes nichado e periférico, o eletrofunk se tornou o gênero “queridinho” nas festas sertanejas e nas listas de músicas mais ouvidas do país.
Atualmente, nomes como DJ Brenno Paixão, DJ Jiraya UAI, MC Jacaré e Jeninho se destacam e rodam o país cantando sucessos como “Chapeluda”, “Ela Carrega Minha Bolsa” e “Rua de Ouro” – esta última ocupava o top 50 do Spotify na última semana.
No entanto, mesmo com mais de uma década de história, foi só nos últimos cinco anos que o gênero conseguiu vencer o preconceito dos sertanejos mais tradicionalistas e deixar de tocar apenas nos carros de som e chegar aos principais eventos do interior.
O eletrofunk mistura muitos elementos e, até quem trabalha com gênero, tem dificuldade de explicar suas características.
“É um funk que não é funk, é funk mas não é funk. Tem mais da música eletrônica mesmo”, tenta resumir DJ Jiraya UAI. Porém, vale destacar que funk também é música eletrônica.
A grande diferença fica nos elementos mais claros do que é considerado como música eletrônica tradicional, o “putz putz” que se ouve mais em raves do que em bailes de favela.
Com letras que falam da vida no interior, o eletrofunk se tornou febre nas festas de rua e nos paredões de som ainda no início dos anos 2010, principalmente nos estados do Centro-Oeste.
Na virada da década, músicas como “Pipoco”, de Ana Castela com Melody, e “Ela Pirou na Dodge Ram”, de Luan Pereira com MC Ryan SP, colocaram o eletrofunk no repertório de dois dos principais artistas do gênero, furando uma bolha de nicho.
Mas ainda faltava quebrar a barreira dentro do círculo dos rodeios e feiras, além de fazer com que artistas sertanejos mais conservadores entendessem a importância da nova geração.
“Eu acho que, no começo, tinha muito artista que não gostava mesmo, muito por uma visão de que as letras eram ruins e tal. Ainda tem gente que vira o olho, mas a maioria viu que tem uma molecada boa, fazendo um trabalho muito legal”, comenta Luan Pereira.
“Até entendo que o pessoal mais tradicional não queira ver em festa, mas o pessoal do eletrofunk tem muito respeito pelo sertanejo também. A maioria vem da roça também, sabe a importância das raízes.”
Principalmente no pós-pandemia, as principais feiras agropecuárias e festivais de rodeio do país passaram a ter presença garantida de artistas cantando ou tocando eletrofunk no lineup, atraindo um público mais jovem e também intercalando novos ritmos sem abrir mão da ligação com o sertanejo.
Para se ter uma ideia, este será o terceiro ano seguido do DJ Jiraya UAI na festa do Peão de Barretos. Ele dividirá o palco com Eduardo Costa e Paula Fernandes, Maria Cecília & Rodolfo, Kaique & Felipe.
Um dos grandes diferenciais do eletrofunk é uma dinâmica de divulgação das músicas pela tecnologia dos pen drives.
É por meio dos aparelhos que DJs e artistas divulgam seus trabalhos nas festas de rua.
Não é como se plataformas como o Spotify e, principalmente, o YouTube, que oferece muitas playlists com remixes do gênero, não fossem importantes para o trabalho de conexão com o público. Mas os pen drives são mais populares pois funcionam 100% offline e são mais fáceis na hora da reprodução nos paredões de som que tocam nos eventos públicos.
“A cultura do som automotivo é muito forte, a galera coloca os "sonzões" nas portas dos carros — eu mesmo tenho uma caminhonete lotada. E, tipo assim, a melhor qualidade para ouvir a música lá é no pen drive”, explica o DJ Brenno Paixão, um dos grandes nomes do eletrofunk.
"Os caras já vão lá, baixam no YouTube e colocam no pen drive, porque tem muito carro de som em Goiás, no Paraná, no interior do Brasil em geral. A galera gosta de passar no pen drive e andar pela cidade tocando a melhor playlist."
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/2/1/7rkyPGRUGR2NNd1xTAaA/foto-12-mc-jacare-1080x1080.jpg)
MC Jacaré – Sexta, 27/02 – Funk fecha a sexta com energia — Foto: Divulgação
Se o topo do Spotify, a principal plataforma de streaming do país, é dominado por sertanejo e funk, MC Jacaré conseguiu encontrar o meio do caminho e colocar o eletrofunk como destaque.
Nascido e criado em Goiânia, ele viu no funk uma chance de viver de música.
“Eu amo sertanejo, toco viola, toco violão, gosto demais de modão, mas produzir sertanejo é um investimento mais caro. Agora, no funk, por exemplo, eu tenho uma música que tem 100 milhões de visualizações e eu gravei a voz no celular. Além da facilidade de produzir, eu também gosto demais de funk. Hoje em dia não tem como você ir a uma festa e não tocar funk, né?”, contou ao g1, durante entrevista em 2022.
Fonte: G1